SÓ PENSAM
NAQUILO
“Eu queria o olhar dos cegos,
para ver
As coisas invisíveis e as coisas
tocadas pelo Espírito.
Eu queria, por um momento, o olhar dos cegos,
Para distinguir as luzes e para ver a luz
pura e única”
(Augusto Frederico Schmidt)
Vivemos momentos difíceis no entendimento
da fé cristã. Os valores que os apóstolos
passaram nos escritos do Novo Testamento perderam sua validade
neste mundo pós-moderno. O Deus sagrado, misterioso, abscôndito,
invisível, que falava ao coração, com voz
mansa e quase imperceptível, que era buscado em meio a
lágrimas e súplicas em madrugadas silentes, esse
Deus desapareceu e modernizou-se. Hoje se tornou comum líderes
conversarem com Ele, assim normalmente, numa espécie de
“viva voz”, e Dele ouvirem ordens e sugestões.
Mudou também a compreensão da Bênção
Divina na vida de seu povo. Antes ela era reconhecida pela paz
de espírito, pela singeleza e pela alegria. Já não
vemos mais ninguém dizendo: “Estou mais humano....
leio mais poesia.... aprendi a ouvir.... relaciono-me melhor com
as pessoas.... não penso somente em mim.... sinto alegria
comendo o meu pão de cada dia... agradeço a Deus
em todas as coisas...”.
Agora, bênção dos céus
precisa ter materialidade: avivamento mede-se em número
de pessoas que a igreja ganhou e não pela qualidade de
vida gerada, e prosperidade é conferida pela conta bancária
e pelo tipo de veículo automotor que possui, numa deturpação
da visão do Antigo Testamento em que rico é o que
tem muito (camelos, ovelhas, terras). Só não compraram
a idéia de ter muitos filhos (“feliz os que enchem
deles a sua aljava”).
Sob qualquer ótica de análise do
comportamento humano, entende-se que é patológico,
é doentio, quando somos dominados por uma irresistível
compulsão de idéias e pensamentos fixos, que é
diagnosticado como obsessão. Certamente Deus não
quer um povo que só pensa “naquilo”. E esse
“aquilo” é da pior espécie, pois se
trata de uma perversão espiritual, uma inversão
dos pressupostos bíblicos do que é riqueza de vida,
e transforma em fetiche aquilo que deveria ser secundário.
Peguemos uma frase-símbolo desse modo de
pensar: “Deus é fiel”. Sem dúvida que
Ele é. Entretanto, Ele não é só isso,
é também um Deus de justiça, misericórdia,
Deus que vê, julga, e deseja um relacionamento sadio com
seus filhos. Essa frase não foi pinçada aleatoriamente
da bíblia, ao contrário, ela é paradigma
da visão deturpada de nosso tempo. Já vi inscrita
até na porta de bares. Há uma ponta de vaidade nas
Hilux, Toyotas e Pick-Ups reluzentes que ostentam a inscrição
que aponta para a suposta fidelidade de Deus aos seus donos. É
como se dissessem: “Tá vendo? Ele não podia
deixar de fazer isso para mim”. Virou uma espécie
de “abra-te-sésamo” espiritual, e dependendo
de quem a utiliza, chega a soar como uma cobrança: se Ele
diz que é fiel, Ele tem de cumprir.
Pensemos nos seguintes casos hipotéticos:
Seu amado perdeu o avião que se acidentou.... Você
foi promovido e o seu salário dobrou... O resultado do
exame médico foi negativo.
Qual a conclusão óbvia? Ora, se
eu ganhei, recebi, alcancei, aumentei, restituí, logo concluo
que Deus é fiel ao seu “chapa” aqui na Terra.
Muito bem, vamos caminhar um pouco mais, agora
apontando para o lado oposto: Seu amado estava no avião
da tragédia... aquela promoção tão
esperada foi para um colega menos competente.... e os seus piores
temores se confirmaram nos exames: deu “positivo”.
Deixou Deus de ser fiel? Caducaram suas promessas?
Cessou a sua Graça? Esqueceu o Eterno de ser benigno? Deus
também não é fiel no câncer, na solidão,
no desprezo, na humilhação, no despojamento, nos
fracassos, nas frustrações, na impotência?
A Bíblia diz que Deus pode transformar
o mal em bem e suscitar força da fraqueza. Deus efetiva
a sua vontade até naquilo que a Ele se opõe. A fé
na providência de Deus não significa que o homem
esteja livre da dor: “nada pode nos separar do amor de Deus”.
Quem só vê a mão divina nas
coisas materiais, nos ganhos, no sobejar, quem aprendeu que Deus
existe para lhe servir, terá grande dificuldade em lutar
com as adversidades, em caminhar de mãos vazias, em orar
e não obter as respostas que deseja. Já vi muita
gente abandonar a fé por ter uma visão deturpada
do Pai. Já vi muita gente esperando a “sorte grande”
chegar e, como ela nunca chegou, desistiu de tudo.
Quando pastores usam malandramente o Antigo Testamento
tem-se a impressão que Deus só age favoravelmente
depois que recebeu os sacrifícios, dízimos, rituais,
bom comportamento, e tudo o mais que eram “sombras das coisas
que haveriam de vir”.
Nada pode tornar Deus mais fiel do que Ele já
é. A fidelidade de Deus não depende da minha: “Se
somos infiéis, Ele permanece fiel” (2Tm 2.13). Deus
manteve-se fiel aos Seus eternos propósitos mesmo a um
Davi adúltero, a um Abraão mentiroso, a um Pedro
praguejador. Ninguém recebe algo do Senhor por mérito,
pois todos somos incapazes de satisfazer as exigências do
Pai de termos uma vida totalmente agradável a Ele. Se fôssemos
pagos com base na justiça, “todos iríamos
parar no inferno” (Philip Yancey). Na verdade, todos nós
fracassamos com Deus.
Tudo o que recebo, tudo o que tenho e sou só
tem existência porque “Deus é Graça”.
A Graça independe de mim, só do Eterno. A Graça
agrega uma palavra belíssima – a misericórdia
– e eu preciso de misericórdia de Deus todos os dias.
Só os tolos acham que merecem alguma coisa. Quando Deus
permitiu a Davi escolher um dos três castigos que lhe apresentou,
ele não titubeou: “prefiro cair nas mãos do
Senhor porque muitas são as suas misericórdias”
(2Sm 24.14). Só é abandonado à própria
sorte o obstinadamente orgulhoso espiritual.
Jesus disse que o seu Reino não é
deste mundo, mas os crentes gospel mergulharam de cabeça
nele. Paulo pediu para pensarmos “nas coisas lá do
Alto”, mas os modernos cristãos preferem pensar “naquilo”....
Pr. Daniel
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