“SENHOR, ESTÁ DOENDO!”
Não precisa de muito esforço para
perceber que a vida de muitos cristãos não é
dominada pela paz e confiança, porém pelo medo,
por sentimentos difusos, por pressentimentos ruins e por ansiedades
sem causa aparente. Enfim, há uma quantidade enorme de
cristãos vivendo uma vida miserável.
Uma das causas disso é a “antecipação”
de uma possível dor que esse cristão venha a sofrer.
E se há algo que todo o cristão teme e o paralisa,
é a possibilidade da dor. Se quisermos ser crentes honestos
haveremos de admitir que não há nenhuma promessa
divina prometendo “inatingibilidade” para o cristão.
Pelo contrário, o que há é o ensino bíblico
mostrando a realidade e a presença da dor.
Fugimos da dor como o diabo da cruz. Tememos a
dor de um sofrimento, a dor da solidão, a dor de um relacionamento
partido, a dor de ser esquecido, ou rejeitado. A vida, então,
passa a ser uma luta constante contra qualquer coisa que possa
nos levar a sofrer. É justamente temendo a dor que muitos
se recusam a amar, pois quem ama de verdade sempre estará
aberto à dor – afinal o amor “tudo sofre”.
É temendo a dor que muitos se refugiam em Deus, não
para adorá-Lo e servi-Lo, mas para serem poupados de males,
doenças, frustrações, derrotas e enfermidades.
Muitos buscam a Deus esperando encontrar uma proteção
especial para que não venha a sofrer por nada nesta vida.
O engraçado é que queremos nos livrar de coisas
que o próprio Jesus passou e aprendeu pelas coisas que
o fez sofrer (Hb 5.8). Enquanto a maioria dos cristãos
quer fazer de Deus um anestésico para a vida, o Senhor
está mais preocupado em endireitar o relacionamento tortuoso
que temos com Ele.
Em nossa caminhada de fé haverá
sempre muitas modalidades de dor – dor física, mental,
espiritual, sentimental, familiar. Se não compreendermos
o propósito das tribulações haveremos de
viver um Evangelho repleto de ressentimentos e incompreensões
para com Deus. Na verdade, Cristo pretende nos levar a enxergar
o mundo e a vida de uma perspectiva diferente.
Nossa visão da vida é mundana, ou
seja, nossa capacidade de interpretar o mundo e as coisas que
nos acontecem estão impregnadas da visão popular,
de senso comum. Não raro vemo-nos repetindo as mesmas coisas
da religiosidade popular que desconhece completamente a Palavra,
e nos nivelamos aos que ignoram a Presença divina no universo.
Há certos textos bíblicos que muitos
cristãos acostumados a uma religião vida mansa,
gostariam de arrancar. Para muitos é difícil entender
porque Timóteo sofria de freqüentes enfermidades no
estômago (1Tm 5.23), porque Paulo deixou “Trófimo
doente em Mileto” (2Tm 4.20), ou porque Epafrodito, companheiro
do apóstolo ficou tão doente que “chegou às
portas da morte”. Para outros é inadmissível
e contraria a natureza humana imaginar que alguém possa
“ter motivo de alegria o passar por várias provações”,
como nos ensina Tiago 1.2, ou que “nos gloriemos nas próprias
tribulações” (Rm 5.3) como pretende o apóstolo
Paulo.
Agimos desonestamente para com Deus quando passamos
por cima de textos como esses, como se eles expressassem um masoquismo
ou virtude estóica daqueles apóstolos, e que tais
palavras não dizem respeito para nós cristãos
do século XXI. Para uma boa parcela de cristãos
é melhor viver “anestesiado”, “chapado”,
e alienado do que acontece à sua volta, desde que não
sinta dor. Isso explica em parte porque recusamo-nos a olhar a
miséria, o moribundo, tememos a velhice e não se
permitimos mais que um doente morra em casa junto aos seus. Tudo
isso são coisas que nos fazem sofrer.
Não é de admirar que esta seja uma
geração de crentes infantis, preocupados com futilidades,
lacrimosos, descontentes com tudo o que possuem, que nunca arriscam
nada, pois buscam confirmação de tudo, crentes que
correm atrás de profecias sobre suas vidas para sentirem-se
seguros, pois a Palavra não lhes basta, crentes que recusam
a serem desapontados ou frustrados em seus pedidos, e batem o
pé que “querem porque querem” tal coisa, crentes
egocêntricos que tem olhos secos para a pequena necessidade
do seu próximo, que ele poderia suprir, mas que para satisfazer
seus apetites infantis chora copiosamente diante do Senhor exigindo
“seus direitos”. Crentes que querem ser poupados de
dificuldades, de trabalhos, e por isso, qualquer obstáculo
que se lhe interponha no caminho já é visto como
ação satânica, quando na verdade é
apenas Deus o impedindo de continuar pois Ele tem outros propósitos
para nós (At 16.6-7).
Tentar fugir da dor e da tribulação
passou a ser uma obsessão. Então, vivem assustados,
e de tudo pedem garantias a Deus. Mas o que a maioria não
sabe é que Deus determinou no seu propósito divino
que haverá de passar pela dor. Faz parte da terapia divina.
Há um processo de cura em andamento que nenhuma mão
humana pode impedir. O Senhor quer forjar cristãos consistentes,
treinados, que passaram da fase de menino onde tudo era motivo
de reclamações.
“Ah, Senhor está doendo!”.
Com certeza dói, e Deus sabe disso. Realmente haverá
momentos na vida em que não teremos nada para nos gloriar
a não ser na nossa dor e na nossa fraqueza, despojados
de tudo, de toda vaidade, de todo eu, e desesperados até
da esperança. Pois é aí, e somente aí,
que Deus haverá de mostrar o poder sobrenatural que opera
na vida dos que suportam a dor e a miséria, somente aí
Deus haverá de substituir a nossa autoconfiança
pela confiança total Nele, e somente aí Ele transformará
nossa natureza decaída na semelhança de Seu Filho.
Quando estamos em Cristo, o mal, a dor não
tem o poder de nos destruir. A tribulação nada pode
contra nós, a não ser nos tornar melhores. Às
vezes não somos curados da dor, mas somos curados pela
dor.
Pr. Daniel
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