Reconhecendo os tempos, épocas
e ciclos
“Levanta-te, querida minha, porque eis que passou o
Inverno, cessou a chuva, aparecem as flores na terra, Chegou o
tempo de cantarem as aves
(Cantares, 2.10-12)
Não
adianta! A vida é cíclica, e os tempos e fases se
sucedem implacavelmente. Alguns ciclos, como os astronômicos,
podem ser previstos com exatidão e por isso, sem falhar,
ano após ano a natureza concebe os seus períodos,
calma e mansamente, passando da explosão de cores e cheiros
da primavera ao aquietar-se dos campos e florestas no inverno.
As fases da vida também têm o seu tempo de começar
e terminar, e ao contrário do que passa pelo imaginário
popular, seu término nem sempre coincide com o último
dia do ano e nem experimentam um recomeçar no ano novo.
Temos dificuldades em reconhecer os tempos, em dar por encerrada
uma fase para iniciar outro momento na vida. Sabedoria é
saber discernir as épocas e passar por elas sem desesperar
da esperança.
Dar um período por encerrado é salutar, benfazejo
e liberta a alma para iniciar algo novo. Não saber encerrar
é como o pintor que retoca indefinidamente uma obra ruim
imaginando que pode melhorá-la. É preciso fechar
a “gestalt”, ou seja, dar um basta àquilo que
está aberto e incomodando.... e despedir-se. Se Abraão
ficasse olhando nostalgicamente a cidade natal que o Eterno ordenara
deixar, nunca teria chegado à terra da promessa. Não
há mapas, não há certezas, só caminhos.
Por mais triste e doloroso que tenha sido um período,
é sempre rejuvenescedor encarar uma nova fase. Deus é
o Abençoador dos que têm a coragem de deixar “Lázaro”
morrer. Não adianta mantê-lo moribundo ligado por
aparelhos. Jesus não prolongou sua agonia, mas “atrasou-se”,
permitindo que ele expirasse. Só aquilo que morre pode
ser ressuscitado.
Por natureza temos medo de encerrar as coisas – até
mesmo as ruins: um curso mal escolhido, um namoro arrastado e
conflituoso, um emprego asfixiante, uma igreja que neurotiza seus
membros....
Parece que estamos adentrando um tempo de grande aflição:
as utopias humanas sucumbiram, o comunismo falhou como proposta
exeqüível, e o capitalismo mostra sua verdadeira face.
Não há mais certezas, tudo que era sólido
está se desmanchando no ar.... e o homem sem Deus não
tem mais onde se apoiar. Tudo está mal? Nem tudo –
tempos de decepções pode ser uma rica oportunidade
de rever conceitos.
Deus pôs a eternidade no coração do homem
(Ec 3.11), mas este preferiu se perder no efêmero e transitório.
Ao cristão é dada a capacidade de discernir entre
o valor daquilo que é temporal e aquilo que é eterno.
Sofremos quando confundimos as coisas.
Por toda a bíblia é falado do tempo da angústia,
tempo da calamidade, tempo de aflição. A bíblia
fala do choro que pode durar uma noite... Quando o povo hebreu
foi para o cativeiro na Babilônia uma grande tristeza se
abateu sobre ele, as harpas foram penduradas nos salgueiros e
seus lábios emudeceram para as canções. Porém
o propósito divino era para que este período não
fosse infrutífero, depressivo ou estéril para o
seu povo, ao contrário:
“Edifiquem casas e habitem nelas, plantem pomares e comam
de seu fruto, tomem esposas, gerem filhos, casem suas filhas....
Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta anos, atentarei
para vós...” (Jr 29.10).
Ora, Deus ouviu as preces de seu povo, viu sua aflição,
mas haveria um ciclo a ser cumprido, um propósito a ser
realizado naquela terra. Na verdade, este é o drama de
todos nós. O salmista não poucas vezes clama: “Apressa-te
Senhor”, ou “Até quando, Senhor?”. Entretanto
Deus fala de um “tempo aceitável” para nos
atender. Endosso as palavras do poeta: há um tempo que
a dor é inevitável, mas às vezes o nosso
sofrimento é opcional.
Há tempo de falar, clamar e consolar, e há tempo
de fazer silêncio. Seria de grande proveito se os tagarelas
da fé, que vociferam inclementes nas rádios e TVs
fórmulas e soluções para tudo, se calassem
como os amigos de Jó que sentaram solidariamente a seu
lado e nada falaram por sete dias, respeitando sua dor. Lembro-me,
quando criança, ao passar um funeral, as portas baixavam,
as pessoas interrompiam suas atividades e solenemente juntavam-se
à dor dos que choravam. O verdadeiro irmão não
é aquele que festeja ao nosso lado, mas que compreende
nosso momento e permanece junto, travando um diálogo silencioso
conosco.
Acho que compreendo Pessoa quando ele diz que “o valor
das coisas não está no tempo que elas duram, mas
na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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