QUEDA PARA CIMA
“Assim diz o Senhor: maldito o homem que
confia no homem....” (Jr 17.5a)
“Assim diz o Senhor: Maldito o homem que
confia no homem...”, e eu completo: seja este homem rabino,
papa, cardeal, pastor, evangelista, padre, freira, missionário,
ou um desses apóstolos modernos.
É emblemático o que com aconteceu
recentemente com o rabino Henry Sobel, homem profundamente ético
em sua postura, autoridade maior do Judaísmo, religião
que preza a guarda de um conjunto de valores morais, regras e
preceitos de boa conduta, honestidade e respeito ao próximo,
e justamente ele foi flagrado furtando algumas gravatas de “griffe”.
Tal fato suscitou grandes polêmicas e indignação.
E eu me pergunto: Onde o espanto? Por que o pasmo?
Não se trata de “demonizar”
o rabino, como pretendem alguns, nem de empurrar a culpa para
a fórmula de remédios, como justificam outros, mas
de entendermos não apenas quem é aquele homem, mas
quem somos nós. Colocar a culpa na “droga”
não é a resposta mais adequada. Quer seja conseqüência
de uma medicação ou não, o desejo –
mesmo que inconsciente – já estava lá. É
como se “uma parte” dele já desejasse em suas
entranhas aquilo.
É da poesia que vem uma explicação
bastante realista de nossa condição humana, que
Ferreira Gullar tão belamente descreveu:
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Somos mais honestos quando reconhecemos nossa
condição humana da eterna luta que travamos contra
a carne, contra as pulsões, tentações, sedução
dos olhos e fraquezas. Paulo, o apóstolo, reconhecia-se
um guerreiro cujo campo de batalha estava dentro de si, e é
dele a melhor definição que já encontrei
na Bíblia sobre nossa condição: “miserável
homem que sou” (Rm 7.24).
Ninguém é um monólito, e
pretender sê-lo torna esse pobre ser risível. Desconfio
que o Senhor se agradava mais do “errático”
Davi justamente por sua adorável “humanidade”
em comparação aos que nunca erraram, e não
têm nenhum pecado a confessar, nenhum deslize para desculpar.
Quem se reconhece maior pecador certamente expressa seu desespero
em profundo amor. Justamente por isso Jesus diz à pecadora:
“perdoados são os seus muitos pecados, porque muito
me amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc
7.47).
Ninguém pode ser reduzido a um ato. Ninguém
é totalmente bom, nem totalmente mau. Estamos caminhando
na fé e abrindo o nosso ser para que a presença
divina ilumine totalmente os porões do nosso inconsciente,
e traga à luz os bichos que ali estão escondidos,
para sermos curados.
Arrisco-me a dizer que o que aconteceu com Sobel
é a história de todos que assumem uma postura perante
o mundo por demais extremada, sem uma contrapartida, diríamos,
mais humana, leve, brincalhona, de alguém consciente de
sua falibilidade. Um bailarino que dá saltos graciosos
é admirável, mas se ele tentar voar... torna-se
ridículo.
Desconfio sempre de quem fica incomodado com gays,
com pobres, com alegria, com corpos, quem é cheio de melindres,
que se espanta com tudo o que é humano. Desconfio de quem
não sabe rir de si mesmo. Jesus, ao contrário, não
tinha problemas com festa, com vinho, com perfume, com gente de
má fama, com mulheres ou crianças.
Começa a existir uma cisão do ser
quando há exagero, ou seja, quanto mais nos identificamos
com nossa “persona”, mais rejeitamos outras partes
indesejáveis de nós mesmos, aquilo que é
grotesco, vergonhoso, invejoso, pueril. Ar grave, moralismo exacerbado,
vida hermética, fixação por certos temas,
são disfarces perfeitos.
Cair pode ser um santo remédio para quem
se reconhece forte, im-pecável, de natureza superior. Cair
faz bem para o ególatra, para quem se acha acima do bem
e do mal. Cair faz bem para quem se endureceu, e perdeu a simplicidade,
criando um “persona” que a cada dia se vê mais
cindida do verdadeiro ser. Oxalá que todos aqueles que
ostentam alguma forma de poder – que acaba envaidecendo
a alma – caíssem, fossem desconstruídos....
Que o Senhor derrube do pedestal todos os líderes cristãs
embalados pelo desejo luciferiano de poder.
Tropeçar nos faz cair aos pés de
Cristo, nos leva a humildade e ao quebrantamento, limpa os nossos
olhos de uma falsa imagem. Cair nos faz sentir humanos, verdadeiramente
humanos, e nos abala de nossas certezas e convicções.
Toda queda é uma oportunidade que Deus concede para o homem
recomeçar sua vida de uma forma diferente. Nesse caso é
uma queda para cima. Mas, infelizmente, há muitos que preferem
ficar se lamentando, remoendo, sendo destruídos pela culpa...
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