O EVANGELHO É
SIMPLES, MAS NÓS COMPLICAMOS TUDO
O beija-flor distraído entrou pela porta
entreaberta da sala. Desesperado, batia nos vidros buscando uma
saída. Tentei pega-lo, mas a cada tentativa ele voava mais
alto, sem direção, e temi que se machucasse. Resolvi
esperar, observando suas fracassadas tentativas de atravessar
o vidro. Se pudesse comunicar-me com ele, lhe diria: “Ei
amigo, fique quieto, não lhe farei mal, só quero
ajudá-lo”. Finalmente, depois de horas se debatendo,
e já sem forças, pude apanhá-lo sobre o peitoril.
Calmamente o reconduzi ao jardim e, pronto, estava livre.
Fiquei pensando que muitas vezes agimos como um
colibri assustado. Há um Deus cuidadoso, presente, sensível,
que deseja nos reconduzir ao caminho quando batemos de frente
nas janelas fechadas. Debatemos-nos, acabamos com a saúde,
adrenalina no corpo, um estresse se anuncia.... e recusamo-nos
descansar. Somente depois de meses ou até mesmo anos, já
com as forças exauridas, Alguém vem e nos pega,
e nos leva para um lugar alto.
Por que Ele não fez isso antes? Só
agora? Vem, então, à minha mente o irrequieto beija-flor.
Admiro quem tem o “sangue-frio” de
descansar em Deus em meio à mais fragorosa tormenta. Invejo
quem mantém a calma e a esperança, como se soubesse
que logo vai passar. Não, não estou referindo-me
aos “alienados” que a casa pode estar caindo e ele
continua no seu sono. Não estou falando do irresponsável
Jonas que diante do navio naufragando, desce até o porão
para tirar uma pestana. Esse é o sono dos inconseqüentes.
Mas eu estou falando de quem ciente do perigo, cônscio da
situação, aprendeu a descansar, a ficar quietinho,
confiando na mão providencial de Deus.
O Evangelho é simples, é um aquietar-se
e saber que Jesus é Deus presente em toda e qualquer situação.
Se sabemos disso, por que complicamos, por que nos angustiamos?
Às vezes me questiono se aprendi a viver na simplicidade
de quem caminha somente pela fé. O Senhor quer me ensinar
a descansar, mas minha mente insiste em imaginar tudo o que pode
dar errado; não consigo pensar nas saídas, mas o
quanto ainda pode piorar a situação. Almejo a fé
simples do centurião romano, que diante do desejo manifesto
por Jesus de ir à sua casa e curar o servo enfermo, prontamente
reage: “Não, Senhor, manda uma palavra e ele será
curado”.
O que fazemos hoje? Complicamos. Ninguém
mais quer confiar na Palavra sem acrescentar rituais ou garantias
para “dar certo”. Então, leva-se o nome da
pessoa, peça de vestuário, documentos, escreve coisas
em papeizinhos, queima na fogueira.... Ao centurião Jesus
elogiou: “nem em Israel vi fé como esta”. O
que Jesus diria dos “complicadores” do Evangelho,
incapazes de crer com simplicidade na Sua Palavra?
Quer orar de forma simples? “Entra no teu
quarto, fecha a tua porta e ora ao Teu Pai...”. Eis o momento
precioso de comunhão e entrega que Deus espera de nós.
Eis o gesto de quem reconhece que aquele quarto ilumina-se cada
vez que você dobra os joelhos na presença do Rei.
É ali que derramamos diante de Deus nossas lágrimas,
e tristezas, e levantamos consolados por seu amor.
Aos olhos do crente moderno, só isso não
pode “funcionar”. É preciso grandes correntes
que oram por nós – e a fé já não
é mais depositada em Deus, mas no tamanho da corrente.
Outro dia ouvi alguém dizer: “Fica tranqüila
que eu inseri o nome de seu filho no site da Lagoinha, lá
tem bastante gente”. Ou seja, seus problemas acabaram: é
a terceirização da oração!
Não é mais fé em Jesus, é
fé na multidão. Buscam-se lugares com muita gente,
pois na crença popular, ali está o poder. Mais uma
falácia de quem desconhece a Bíblia: multidão
é sempre sinônimo de dificuldade e impedimento. Foi
assim com o cego de Jericó (“cala-te”), foi
assim com a mulher hemorrágica, e Jesus ressuscitou a filha
de Jairo somente após ter “afastado o povo”.
O Evangelho é simples, leve e suave, mas tornaram-no pesado,
culposo, cheio de gente neurotizada que chama sua doença
de saúde.
O Evangelho diz que há um caminho muito
mais excelente que qualquer dom que alguém venha a possuir,
e quem não trilha-lo esses dons serão como palha,
feno, um barulho inconseqüente. Muitos vêem com desconfiança
a máxima de Agostinho que resume este caminho: “ama
e faze o que quiseres”. Essa liberdade que Jesus nos dá
causa vertigens, pois a espiritualidade só é vista
como negação. Entretanto, o Evangelho não
é uma compilação de regras e ordenanças.
Poucos se apercebem que Jesus enfatizou sempre o “sim”:
ama, perdoa, faze, pratica, caminha, entrega. É muito mais
simples e eu não preciso andar com uma "listinha"
do que é pecado ou não.
Ama e pode fazer o que queres, sim, pois da raiz
do amor só pode sair o que seja bem. O amor não
se alegra com o erro, o amor não se conduz de maneira inconveniente,
o amor não se exaspera, o amor não machuca. Por
isso, se falar, fale por amor, se calar, cale porque ama, se exortar,
exorte chorando, se casar, só case se o amor despertou
em você.
Como diz o poeta: “devia ter complicado
menos..... e amado mais”
Pr.
Daniel Rocha
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