NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI

“Tarde vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova,
tarde vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim,
e eu lá fora a procurar-vos”.(Agostinho)

O pai da pequena Lílian morreu atropelado por uma moto quando ela tinha apenas um ano. A família optou por doar todos os seus órgãos, inclusive o coração. A menina cresceu com um sentimento nostálgico de como seria bom se o pai estivesse ao seu lado para dividir sonhos, tristezas e alegrias. Sentiu sua falta por toda a infância, e nunca experimentou a alegria de vê-lo nas festinhas da escola ou esperando na porta do colégio, nem ter-lhe por perto nas crises de adolescência. Só conhecia o pai por uma única foto que guardava em um porta-retrato.

“Eu ficava sempre pensando como seria se ele estivesse comigo, se me levasse ao altar da igreja quando eu casasse... Cresci perguntando para minha mãe se poderia vê-lo novamente”. Começou, então, a procurar uma lembrança, alguém que tivesse recebido um dos órgãos doados pela família. Chegou ao homem que recebeu o coração de seu pai, um ex-atleta que morava a 260 km de sua casa. O primeiro encontro foi emocionante, choraram, abraçaram-se, contaram histórias.... Um amor nasceu daquele encontro e dez meses depois ela entrou na igreja, vestida de noiva, levada pelo padrasto, mas no meio do caminho um homem feliz, que em 1989 recebeu um coração novo, caminhou com aquela jovem até o altar.

Isto aconteceu a poucos dias no sul do país, mas penso que também está se repetindo em todos os momentos nos mais diversos lugares. É uma história que serve como metáfora de nossa busca existencial. Todos perguntamos: “Onde está o coração do Pai?” Cada ser humano, nascido em qualquer época, em qualquer civilização ou localização geográfica, sente uma nostalgia de Deus. É como se estivessem lançando um profundo grito existencial: “Socorro, está faltando algo!”.

Há um buraco dentro de cada homem e cada mulher. Nascemos, crescemos e vivemos sentindo uma falta que não se preenche com nenhum objeto, com nenhuma pessoa especial, e nenhuma conquista nos faz esquece-la. Na verdade, nossos sonhos, buscas e anseios revelam que estamos procurando um coração no mundo.

Nossos ancestrais reuniam-se em torno de fogueiras e cantavam canções para afastar os fantasmas. Hoje, os shoppinhgs e barzinhos são os lugares que se aglomeram para exorcizar a solidão e mantê-la lá fora. No fundo buscam um coração no mundo. Para esses, Deus está no prazer, no carro novo, na conquista.... mas o buraco está crescendo. Tanto o hedonista que vê no prazer o bem supremo quanto o legalista que busca no imperativo da lei o seu sentido de vida, ambos buscam com essas posturas aplacar a dor da solidão e o vazio. Entretanto, o desespero, a angústia existencial e as neuroses nunca foram tão expressivas como em nossa época. Poucos são os que compreendem que aquilo que buscam não é tangível, não está à venda, não pode ser alcançado por rituais, ofertas, palavras mágicas, mantras ou correntes.

Qualquer coisa que prometa preencher esse vazio é um ídolo. Assim como Arão e o povo construíram para si um bezerro no deserto, e disseram “esse é o nosso deus”, isso vem se repetindo na vida de quem busca o “coração do Pai” em objetos, pessoas, lugares e em bênçãos.

Onde está o coração do Pai? Eu o quero, eu preciso Dele num mundo frio, indiferente, que não se importa. Estaria em alguma igreja em especial? Grupos evangélicos buscam o Pai no conhecimento da reta doutrina, católicos nos rituais e na eucaristia, pentecostais em línguas, milagres e sensações, neopentecostais nas adorações extravagantes e arrebatamentos, judeus messiânicos em legalismos e volta ao passado. Entretanto, ninguém pode dizer que “capturou” Deus no seu arcabouço teológico. O Pai tanto pode estar ali ou passar ao largo de todas elas. Deus pode suscitar filhos até de pedras, em terreiros de macumba, nos prostíbulos ou no inferno de uma masmorra. A sua Graça é irresistível. Diante dos religiosos fariseus que insistiam dizer que eram filhos de Abraão, ou seja, tinham pedigree espiritual, Jesus profere uma dura sentença às pretensões de filiação divina e transfere a paternidade deles para outro: “Vós sois filhos do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo 8.44)

Há órfãos de Deus neste mundo imenso. Até na Casa do Pai os encontramos: são os que reduziram suas vidas a vãs repetições que não fazem mais sentido para si, nem expressam uma verdade do coração, não sentem prazer em estar na presença Dele, escondem suas incongruências atrás dos clichês religiosos, sempre são fortes, felizes e auto-suficientes, têm certeza de tudo, resposta pra tudo, e não admitem tristeza ou depressão. Esquecem que o Pai habita no alto e santo lugar, mas “também com o contrito e abatido de espírito” (Is 57.15).

O pior tipo de desamparado é aquele que busca, não o Pai, pois no fundo não lhe interessa a comunhão, mas as benesses do Pai. Este, não apenas é órfão como não percebeu o que realmente falta em sua vida. É por isso que muitos não encontram na casa do pai irmãos enternecidos que aqueçam os seus corações. Não é de se admirar, pois no final dos tempos as pessoas seriam “desafeiçoadas” e o “amor de muitos esfriaria”.

“Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo”. Não aceito nada menos que Deus. Não adianta enganar-se com ídolos, pois mais cedo ou mais tarde revelarão sua impostura. Às vezes sedimentamos a imagem do Pai e dizemos: “Deus é assim”. Tolice! A multiforme face do Pai pode aparece a nós da forma mais inusitada. Recordo-me a história da menina cujo pai foi para a guerra e ela sempre olhava com saudade para o retrato dele na parede. Alguns anos depois um homem entra feliz pela casa e chama pela filhinha querida. Ela se afasta: “Meu pai não é você, é aquele na parede”.

Nostalgia, sentimento de que está faltando algo. É como se dentro de nós estivesse inscrito aquilo que um dia Agostinho (354-431 d.C.) descobriu: Nunca Te vi, sempre Te amei. Ele sabia que a nostalgia por Deus habita no coração do homem. Experimentou de tudo nesse mundo, uma vida desregrada, e fez o que seus instintos ordenavam, mas foi somente depois de ter encontrado o Pai que veio a quietude e serenidade: “Porque nos criastes para vós, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em vós”

Pr. Daniel

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