NEM TUDO O QUE É MAL É
MAL
“Foi-me bom ter eu passado pela aflição”
(Salmo 119.71)
Davi
foi o primeiro a dizer: “foi-me bom ter eu passado pela
aflição”. Depois Tiago: “tende por motivo
de toda alegria o passardes por várias provações”.
Só mesmo no absurdo da fé alguém poderia
dizer que é bem passar por algo que, aos nossos olhos,
é mal. Os valores no Evangelho quase sempre vão
em direção diametralmente oposta ao senso comum
das pessoas. Senão vejamos:
O sujeito encontra um campo, vai e vende tudo o que tem e compra
aquele terreno achando que fez o melhor negócio do mundo
(Mt 13.44). A viúva deposita duas pequenas moedas no gazofilácio
e Jesus diz que ela ofertou mais que todos os ricaços (Mc
12.43). Pescadores rudes e iletrados são chamados de sábios
e os que se debruçaram anos nos estudos da religião
são chamados de ignorantes.
As melhores definições de riqueza, lucro, poder
ou felicidade que nos são ensinadas desde crianças
“não batem” com o Evangelho. Os ensinamentos
do Reino também não se alinham com a visão
normal que temos de perda, prejuízo ou derrota, pois constantemente
essas coisas são chamadas de “momentânea tribulação”
que nos dignificam ao invés de nos destruir.
Muitas maravilhas e obras foram produzidas não como resultado
do que sobeja, mas do que falta. Em Cristo, deficiência
não é impedimento e limitação não
é desculpa. Fanny Crosby, cega desde a infância por
conta de um erro médico faleceu aos 94 anos como a maior
autora de hinos sacros de toda a história. Sua vida foi
tão impressionante quanto a qualidade e quantidade de seus
quase nove mil hinos e poemas compostos. Pouco antes de sua morte
ela escreveu...
“Creio que a maior bênção que o Criador
me proporcionou foi quando permitiu que a minha visão externa
fosse fechada. Consagrou-me para a obra para a qual me fez. Nunca
conheci o que é enxergar, e por isso não posso compreender
a minha perda. Mas tive sonhos maravilhosos. Tenho visto os mais
lindos olhos, os mais belos rostos e as paisagens mais singulares.
A perda da minha visão não foi perda nenhuma para
mim”.
Até a natureza nos ensina: a mais preciosa pérola
só pode ser produzida pela ostra se houver nela uma incessante
irritação provocada por um grão de areia.
Ela se defende do incômodo produzindo uma secreção
– o nácar – que recobre o corpo estranho para
anular aquele mal. Então se compreende porque ostra feliz
não produz pérola.
Os produtores dos melhores vinhos do mundo sabem que, de um modo
geral, a videira não gosta de solo fértil. Ela precisa
“sofrer” para produzir fruto de qualidade. Outonos
secos e verões quentes vão também contribuir
para a maturação das uvas. A região de Borgonha,
na França, apresenta todas as condições ideais
para produzir os melhores vinhos do mundo. E o que essa região
tem de especial? Justamente os preceitos “negativos”
que vão estimular o fruto a fazer um esforço extra
que vai resultar num vinho de qualidade inigualável.
No rigor do inverno, a neve acumulada sobre os galhos fortes
das grandes árvores irremediavelmente os quebram. Mas são
justamente os pequenos arbustos que sobrevivem, pois seus galhos
frágeis se curvam sob o peso da neve. Quem endurece quebra,
quem verga passa incólume. Faz-me lembrar a advertência:
aquele que, diante de Deus, endurece sua cerviz será quebrantado
de repente sem que haja cura (Pv 29.1).
O povo hebreu ficou no deserto muito mais tempo do que a distância
realmente requeria. Mas havia muito a aprender com o desconforto,
com a falta de provisão, com o clima ruim, com o viver
em comunidade. Se desde o nosso nascimento não houvesse
um só problema ou contrariedade, e no decorrer do crescimento
tudo o que se desejasse fosse alcançado, não chegaríamos
jamais à maturidade, mas seríamos seres afetados,
presunçosos, egocêntricos e permaneceríamos
num infantilismo crônico por toda a vida.
Nem tudo que nos acontece de mal é de fato mal. Depois
de passar por um longo período de necessidades, isolamento
ou incompreensão, você certamente eliminará
de sua lista uma série de amigos que lhe viraram as costas,
mas terá descoberto pessoas maravilhosas pelas quais você
agradecerá a Deus por tê-las conhecido. Depois de
passar pelo vale da sombra da morte, por uma doença ou
acidente quase fatal, você nunca mais será o mesmo:
seus valores mudarão, e não terá mais paciência
com picuinhas ou perderá tempo com futilidades.
No Reino de Deus se o grão de trigo não cai e morre,
não frutifica. Se cair, produz.
Antes de reclamar com Deus porque perdeu, porque sofreu ou adoeceu,
veja o que Ele lhe propõe, mesmo sem tirar o infortúnio.
Talvez nasça em você algo que nunca perceberia se
não tivesse perdido. Espere para ver, mas não chore
além do que deve. Afinal, nem tudo que a princípio
parece ser mal, de fato é.
Certamente não é motivo de comemoração
a perda de um emprego, a descoberta de uma doença, ou um
prejuízo inesperado. Porém, é certo que as
vicissitudes da vida virão quer gostemos ou não.
Mas ao viver na fé saiba que nada, absolutamente nada,
pode nos separar do amor de Cristo – nem mesmo as coisas
ruins.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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