NÃO FALE MAIS NISTO!

“Rogo-te que me deixes passar, para que eu veja esta boa terra... Porém, o Senhor indignou-se muito contra mim, por vossa causa, e não me ouviu; antes, me disse: Basta! Não me fales mais nisto!” (Dt 3.25-26)

Moisés, nome que em hebraico significa “tirado das águas”, foi um homem de Deus, escolhido e chamado por Iavé para liderar o seu povo a sair do Egito e caminhar pelo deserto em direção à Terra Prometida.

Durante toda sua vida Moisés orou muito e pediu muitas coisas a Deus. Quase nada para si. São exemplos do caráter manso e desprendido de Moisés quando ele pede para Deus suspender a lepra dada aos seus irmãos Miriã e Arão por terem se insurgido contra ele, e por ter ficado prostrado intercedendo quarenta dias e quarenta noites quando Deus em sua ira ameaçou destruir todo o povo (Dt 9.25).

Agora, quase ao fim de sua jornada, Moisés pede para si. Depois de liderar o povo por dezenas de anos rumo à Terra Prometida, o grande líder sente-se no direito de gozar do mel, do leite, da água, da sombra, e das videiras da terra santa, e quem sabe via ali a oportunidade de dar mais atenção à Zípora, sua esposa e a Gerson seu filho. Sim, não há nada de errado desfrutar da glória de 40 anos de caminhada ao lado de seu povo, recordando os grandes feitos de Deus e sorvendo do bom vinho da terra.

Ele dirige-se, então a Deus, como uma criança quando pede algo muito precioso ao seu pai, esperando que ele atenda. Não foi um pedido qualquer, porém, com a intimidade que tem com o Senhor, ele diz: “Rogo-te, que me deixes passar”. Mas o que vemos em seguida é uma das recusas mais fortes que Deus dá a uma oração em toda a Bíblia. Uma resposta que nos parece mais de um Deus irado e incompreensivo que amoroso e compassivo:

-Basta, não me fales mais nisto! (Dt 3.26)

Entendemos que Moisés já havia feito esse pedido antes a Deus e o Senhor lhe havia negado. Entretanto, não há problema algum em insistir com Deus. A própria bíblia nos ensina a perseverar sempre em oração. Mas aqui Deus parece não se agradar da insistência de Moisés, e lhe proíbe de tocar outra vez neste assunto.

As Escrituras não mencionam os sentimentos que tomaram conta de Moisés desde este dia até a sua morte. Mas fico me perguntando que sentimento o povo evangélico nutriria hoje diante de um Deus que respondesse de uma forma tão negativa assim?

Já ouvi muita gente dizer: - “Não aceito isso!” E passam o resto da vida amargurados e cobrando um “sim” divino.

Outros se culpam achando que não estão orando adequadamente, ou estão jejuando pouco, ou precisam participar de alguma corrente ou fazer alguma forma de barganha com Deus.

Alguns desenvolvem um sentimento de rejeição do tipo: “Todos recebem bênçãos, só eu que não. Eu nasci mesmo para sofrer”.

Outros imaginam que o problema é porque não estão usando a “palavra certa” na oração, pois estes entendem erroneamente que as coisas divinas só se resolvem quando acertamos a palavra que deve ser usada. Na verdade, isso é uma ofensa a nosso Pai, pois indiretamente estão dizendo que Deus tem uma deficiência de compreensão.

Quais seriam, então, os propósitos divinos quando nos é negado algo que tanto desejamos?

Em primeiro lugar é importante saber que Deus é soberano e Senhor sobre tudo e Ele não deve satisfação a nós de seus desígnios, cacos de barro que somos. Em segundo lugar, Deus não é devedor para ninguém. Não há nada que façamos por Ele para depois Lhe dizer que temos direito disso ou daquilo. Tudo o que Ele nos dá é exclusivamente por Sua graça e misericórdia, e jamais por nossos méritos. Por isso Ele diz: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm 9.15).

Talvez Deus esteja querendo nos dizer: - “Filho, há outras coisas que quero Lhe mostrar, mas para isso, Eu preciso mudar o seu “foco”, vou tirar a atenção do seu desejo.” Em outras palavras, Deus quer nos liberar para o Seu propósito. Se eu vou gostar ou não, é outra história.

Por isso, quando Iavé lhe disser “basta”, não insista mais – é a senha para recomeçar a vida de outra forma.

Sim, amados, muitas vezes nossos olhos se prendem naquilo que tanto buscamos, entretanto há outras coisas que Deus deseja que experimentemos e vivamos. Um coração obcecado por um desejo não consegue enxergar mais nada na vida, tudo lhe perde o valor e o sabor, nada mais lhe apetece.

Quando Deus diz “não” Ele sabe que nos machuca. Muitos, na situação de Moisés sentiriam o seu ego ferido, e diriam: “porque eu não posso e outros inferiores a mim podem?” Este é um sentimento que sem dúvida Deus não deseja em nós. Moisés entendeu o recado. Vejam que o próprio Senhor lhe diz: “Dá ordens a Josué, anima-o e fortalece-o; porque ele passará” (Dt 3.28). Já pensou nisto? Deus o impede de ir e anda lhe encarrega de fortalecer e animar quem vai!

Quando Deus diz “não”, ao mesmo tempo que encerra abruptamente nossos sonhos, nos são abertas as portas para uma vida que Ele sonhou para nós. Por trás de cada negação há um ensinamento a ser apreendido e um consolo a ser recebido do próprio Jesus. A Paulo não foi lhe dado a graça de se ver livre do espinho, mas lhe foi dada uma graça muito superior a esta – a graça de ser inteiramente sustentado por Deus, a graça de em meio a fraqueza ser forte pela presença divina, a graça de ver enxugada as lágrimas pelo Espírito Santo, e acima de tudo a graça de saber aceitar a vontade divina em sua vida.

Estamos conversados, e não se fala mais nisto!

Pr. Daniel

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