Engana que eu gosto

Constatamos com pesar, que muitos daqueles a quem amamos e desejamos todo o bem, apresentam severas dificuldades em encarar a vida com discernimento e bom senso; distorcem por vezes a realidade para encaixa-la nas fantasias de suas mentes, vivem de ilusões e as chamam de verdade, “dão crédito à mentira” (2Ts 2.11), e seguem por caminhos estranhos. É como se houvesse um torpor, um véu posto aos olhos como uma venda que impede de enxergar.

Há dois tipos de falsificação da realidade. Uma é provocada pelo Inimigo, que desde a Queda tem se insinuado com suas mentiras e aleivosias. A serpente foi chamada de enganadora. Paulo demonstra preocupação com sua ação sedutora: “receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente” (2Co 11.3). Ele também reconhece que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos” (2 Co 4:4) para que as pessoas não pensem e ajam com clareza.

Por outro lado, a ação de Satanás pode estar sendo facilitada por uma obnubilação da mente, um obscurecimento do pensamento, um lusco-fusco mental que impede enxergar aquilo que está evidente. Quando, em alguns momentos da vida, há essa perda de clareza, a mente falsifica a realidade. Passa-se, então, a agir e pensar sobre falsas premissas criadas pela imaginação, perde-se o referencial, e “ao mal chamam bem e ao bem, mal... põem o amargo por doce e o doce, por amargo” (Is 5.20).

E por que há tanta dificuldade em se encarar a verdade? É que partir do momento que a luz de Cristo iluminar os calabouços do inconsciente, será necessário tomar uma atitude, mudar de direção, dizer “basta!”, separar-se, afastar-se, mudar de rumo, terminar, recomeçar, dizer “sim” à Deus e “não” a tudo o mais. Por isso, é mais fácil não enxergar, é mais cômodo fingir que está tudo bem. O poeta Mário Quintana resumiu com propriedade:

“O mais triste de um passarinho engaiolado é que ele se sente bem”.

Por vezes a mente é enganada pelos sentimentos. Os sentimentos e as paixões do coração alteram a percepção das coisas/pessoas, fazendo com que enxerguemos somente aquilo que o coração deseja ver. Porém, depois de algum tempo, as ouviremos exclamando: “Como eu não percebi isso antes?”. Elementar: você viu, mas não quis enxergar. É de nossa natureza. “Tu vês muitas cousas, mas não as observas; ainda que tens os ouvidos abertos, nada ouves” (Is 42.20).

A consciência frágil e a falta da percepção correta da vida abrem as portas para a entrada dos “sedutores” espirituais. Todo enganador cativa, seduz, encanta com palavras suaves, toca nos pontos certos do coração ferido e sempre fala o que a pessoa pretende ouvir.

Se alguém vem e lhe diz que as coisas lhe irão bem se fizer uma oferta, se oferecer um sacrifício, se decorar um mantra, se repetir um gesto, se pronunciar a palavra certa, se rezar o terço, se fizer um “trabalhinho”, se acender uma vela e pedir ao santo certo, ou se pagar uma promessa..... então você vai e faz. Há quase que um prazer secreto em ser seduzido por coisas “fáceis” diante da complexidade da vida. É como se dissesse: “engana-me mais que eu gosto”.

Será possível aos pequeninos perceberem que estão sendo levados ao erro? Sabemos que há uma advertência de Jesus contra quem faz o outro tropeçar, e que “melhor seria amarrar uma pedra no pescoço e se atirar no mar” (Mc 9.42). Mas se examinarmos mais de perto veremos que há pequeninos que não são tão “inocentes” assim. Na maioria das vezes abriram mão de buscar a verdade por estarem mais desejosos em atender seus desejos e anseios pessoais – e para isso não se importaram com os meios, desde que os fins fossem alcançados.

Muitas escolhas e decisões se revelarão desastrosas em curto prazo se tomadas sobre falsas premissas. A área do amor é comumente marcada pela auto-ilusão, pois o apaixonado muitas vezes recusa-se a ver aquilo que pode estar patente aos olhos de outros. A dúvida é sempre penosa, mas ela faz parte do amadurecimento que Deus deseja para nós na área afetiva, e isso se adquire com o tempo passado juntos. Entretanto, tenho notado que muitos jovens cristãos querem eliminar qualquer dúvida que o seu interior esteja mostrando, e pedem um sinal claro de Deus que “aquele(a)” é o homem ou mulher de sua vida. E então temos uma suposta revelação divina muitas vezes divorciada dos sentimentos, da realidade e da vida!

Os relacionamentos humanos só podem ser bênção se forem calcados na verdade. Caso contrário não há promessa divina que irá sustentá-los. Como saber, então, se não estou sendo “enganado” pelos meus olhos, pelos meus sentimentos ?

Creio que o Espírito Santo, de alguma forma nos avisa [isto é, para quem quiser ouvir], através de um desassossego ou inquietação da alma. Quando os discípulos, estavam no caminho de Emaús, somente depois de algumas horas perceberam que conversaram com o próprio Cristo: “porventura não nos ardia o coração?” (Lc 24.32).

Busque a direção da Palavra, uma mente liberta por Deus, e use sempre o bom senso em todas as situações. E cuidado para não ser enganado por sua “inocência”, pelo excesso de confiança nos seus sentimentos ou pelo excesso de credulidade na palavra de pessoas.

Responda para você mesmo(a): quais são as áreas em sua vida que Deus está lhe mostrando a verdade, e você insiste em continuar com sua “ilusão”?

Rev. Daniel Rocha

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