DUVIDO
Creio em Jesus Cristo, creio no Espírito Santo, creio
nas Sagradas Escrituras, creio no testemunho de vida que homens
e mulheres de Deus deixaram para nós, creio que Jesus realiza
milagres e maravilhas ainda hoje, creio que os dons espirituais
não cessaram, creio na simplicidade do Evangelho. Mas isso
não significa que eu seja um crédulo. Credulidade
– que é a tendência de considerar obra divina
tudo o que vê ou ouve – é a mãe de todo
engano, superstição e crendice: ela nada questiona,
não confronta com a Palavra, nem põe à prova
a motivação dos que exalam odores sagrados.
A credulidade pode até mesmo ser mais perniciosa que a
incredulidade, pois é mais fácil um incrédulo
ouvir a palavra da verdade e passar a crer, que um crédulo
cheio de meias-verdades vir a abandoná-las e descansar
sua alma habitada por maldições e decretos na cruz
de Cristo. A “crença” satisfaz a necessidade
do homem de ter uma religião – qualquer uma. Por
isso, toda credulidade é um obstáculo à fé.
No livro de Atos havia um homem chamado Simão que iludia
o povo com suas artes mágicas e todos “lhe davam
ouvidos, do menor até o maior, dizendo: este homem é
o Poder de Deus” (At 8.10). Até que chegou Felipe
e começou a ensinar sobre o reino de Deus e pregar sobre
Jesus Cristo. Deixaram então a credulidade ingênua,
para seguir o Evangelho.
A Palavra de Deus tem para os cristãos espalhados pelo
mundo um caráter normativo, ou seja, é ela quem
estabelece normas e padrões de fé. Nenhum cristão
pode seguir algo simplesmente porque “dá certo”,
nem porque lhe é agradável aos ouvidos, nem porque
atrai multidões. Se a Palavra de Deus não autoriza,
então aquilo que se faz não tem valor algum.
Podemos e somos incitados pelo Eterno a questionar tudo o que
contraria os princípios bíblicos e o espírito
das Escrituras. O propósito desta reflexão não
é julgar pessoas, mas mostrar o quão divorciado
da Palavra está a prática da igreja contemporânea.
Por exemplo...
Duvido que se Pedro vivesse hoje ele teria a coragem de fazer
algum programa radiofônico que prometesse cura e emprego
a todos que pagassem um carnê ou enviassem dinheiro para
manter o programa no ar.
Duvido que alguma vez tenha passado na mente de Paulo a idéia
de reunir o povo de Corinto ou Éfeso para fazer uma grande
marcha reivindicando aqueles territórios e terminando com
um grande encontro reunindo os cônsules e governadores romanos
da região.
Duvido que o povo de Jerusalém que dia a dia se convertia
ao Senhor Jesus, alguma vez tenha imaginado, crido ou suspeitado
que as rochas daquele local, a água do rio Jordão
e o azeite de suas oliveiras eram sagradas ou possuíam
em si poderes miraculosos.
Duvido que Paulo achasse sensato subir até o Areópago
para pregar aos filósofos que ali se reuniam, e declarar
bem alto que a partir daquele dia a idólatra cidade de
“Atenas é do Senhor Jesus”.
Duvido que hoje Jesus se agradasse de templos suntuosos repletos
de multidões cuja primeira necessidade [confessada pelos
próprios participantes] não é adorar a Deus,
confessar seus pecados, apresentar louvores ou buscar a salvação
de suas vidas, mas em resolver os negócios de suas empresas.
Duvido que Pedro e João, que curaram um coxo na porta
do templo de Formosa, colocassem um aviso naquele local prometendo
cura para todos que ali acorressem.
Duvido que na Igreja Primitiva os louvores ocupassem quase todo
o tempo de culto, e quando todos estivessem bem cansados, a palavra
era passada a um apóstolo para uma breve mensagem.
Duvido que os chamados apóstolos do presente aceitassem
viver com os parcos recursos que os apóstolos do passado
possuíam, a ponto de diante de um mendigo que lhes pedia
uma simples moeda, dizerem: “não possuo nem ouro
nem prata” (At 3.6).
Duvido que o centurião romano aceitasse a sugestão
de algum pastor moderno para levar uma peça de roupa dos
enfermos de sua casa. Com certeza ele confessaria que “Jesus
é o Senhor de tudo, sabe todas as coisas e não precisa
de pontos-de-contato para expulsar a doença do corpo de
alguém”.
Também não creio que os discípulos de Cristo
confundissem salvação com prosperidade material,
substituíssem as Escrituras por decretos, e abandonassem
o antigo e bom Evangelho por novas visões e unções.
Rev. Daniel Rocha
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