DEUS, O PARAQUEDAS
E A FELICIDADE
«Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti» (Agostinho de Hipona)
O que há em comum entre o paraquedas preso ao corpo do piloto e o seguro de vida? Resposta: ambos são para serem utilizados em casos de emergência. Ou seja, se as coisas caminharem bem, se não houver contratempos, acidentes, ou percalços, significa que estaremos felizes com a nossa sorte, e não justificaria o uso daquelas coisas que foram feitas apenas para aquelas ocasiões que não esperamos passar.
Valho-me dessa metáfora para mostrar que possivelmente este seja o modo que boa parcela da cristandade convive e se relaciona com o Eterno – Deus é para ser “acionado” somente em caso de emergência, e assim que o perigo passe, volta-se novamente ao velho estilo de vida.
Logo deduzimos que se houver uma caminhada tranqüila e feliz, sem sobressaltos ou sem oferecer perigos imediatos a nós, Deus não fará parte de nossa vida, nem de nossos pensamentos, e dificilmente partilhará de nossos projetos, emoções ou vitórias.
Vivemos num mundo onde a maioria das pessoas imagina que possui tudo para ter felicidade – capacidade, força de vontade e formação intelectual – e caso ainda não se sintam felizes, é só uma questão de tempo: trabalharão bastante para chegarem lá. Certamente desconhecem que isso não depende somente do esforço delas, mas do Eterno. Não vem delas, vem de Deus. Na verdade a bíblia diz que “inútil vos será levantar de madrugada e repousar tarde....” (Sl 127.2) se Deus não estiver no negócio.
Se se busca uma “felicidade” que prescinde de Deus, quão miserável e desgraçada ela é. Deixar Deus “fora” da existência, é estar preso à uma ilusão, é não estar em harmonia com as leis divinas.
Qual tem sido o impedimento para reconhecer a importância da inclusão de Deus em nossa vida? C.S.Lewis em seu livro “O Problema do Sofrimento”, entendeu que enquanto houver uma ‘vida satisfatória’, não nos renderemos a Ele tão cedo. Concordo.
Comprovamos com relativa facilidade que Deus está fora do mundo dos felizes. Ali a Sua presença é prescindida. A menos que lhes sobrevenham algo que os desestabilize, os deixe perplexos ou de repente encontrem-se sozinho num mundo frio e indiferente.
Deixe-me explicar: Deus nos sussurra em nossos prazeres, mas brada em nosso sofrimento: o sofrimento é o “megafone” de Deus para despertar um mundo surdo (C.S.Lewis).
Então, se há um propósito do Eterno em chamar a nossa atenção, e participar de nossa vida, o que Ele poderia fazer a nosso favor, para nos acordar para essa realidade? A resposta me parece óbvia: tornando nossa vida “menos” satisfatória. Sim, é exatamente isso: a dor, a doença, as perdas, e a perplexidade, são este “megafone” divino para nos dizer: “Desperta das tuas ilusões! Não há vida abençoada se a minha Presença não for contigo”.
O sofrimento faz a pessoa parar, refletir, repensar sua trajetória, pois agora ela foi despertada de seu mundo de ilusão, e se encontra face a face com a dura realidade do Universo. Porém, alguns, diante da perda ou da dor sem explicação se revoltam contra os céus, tornam-se criaturas cínicas e amargas, e não percebem a oportunidade que Deus está lhes dando para repensarem sua história.
Toda autossuficiência deve ser renegada na vida. Tanto os sentimentos de “autojustificação” quanto “autossuficiência” diante de Deus estão mais presentes nos que se acham dignos, honestos, e pertencem às classes melhor remuneradas que aqueles que se vêem como impuros, pecadores, sem virtudes. Estes chegam mais facilmente à conclusão de que precisam de Deus. Vemos isso claramente no ministério de Jesus: prostitutas, ladrões e adúlteros se convertiam.... os religiosos sem noção endureciam.
Agostinho de Hipona, um intelectual do século IV, tinha boa formação, bom nível de vida, aproveitou sua juventude dando vazão aos desejos, mas aos 31 anos passou por uma profunda crise pessoal, e depois de algum tempo se rendeu ao Senhor. Escreveu nas suas Confissões:
“Tarde Te amei, ó beleza antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu procurava-Te do lado de fora.... Quando te procuro, ó meu Deus, procuro a felicidade da vida. Procurar-te-ei, para que minha alma viva... Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que Te servem por puro amor: essa alegria és Tu mesmo. É esta a felicidade e não outra. Quem acredita que exista outra felicidade persegue uma alegria que não é verdadeira».
Então, ou se continua rebelde, pagando um preço altíssimo da falta de sentido e do desespero, ou se “verga” diante do Criador e Sustentador de nossas vidas. Deveria ser motivo de grande temor a advertência divina de que “o homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz será quebrantado de repente sem que haja cura” (Pv 29.1).
Escrevo essas palavras, a você leitor/a do Pão Quentinho, no último dia do ano (2010), no desejo que elas servirão de exortação para começar um novo ano de uma forma diferente, onde Deus seja mais que um “paraquedas” a ser acionado em situações de crise, mas o Abençoador constante e fiel, que renova as suas promessas para com você a cada manhã.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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