DEUS, NÃO SE INCOMODE
COMIGO
“Mas tu lhes dirás as minhas palavras, quer
ouçam quer deixem de ouvir....” (Ez 2.7).
Creio
que todos nós convivemos com pessoas que amamos, mas cuja
existência carece de uma compreensão maior de Deus.
Não se apercebem da ausência de transcendência
na vida, não se dão conta dos vícios da alma,
da ausência do sentido de Eternidade, presas que estão
só naquilo que tem existência concreta.
São pessoas que escondem o desespero existencial atrás
de uma fachada de alegria e embalos. Curtem a vida, e normalmente
se interessam por religiões orientais, yoga e esoterismo.
Dão ouvidos aos seus parceiros de baladas, amam esse mundo
pós-moderno e suas maravilhas tecnológicas, gozam
sua independência, e negam-se a fazer parte de qualquer
coisa que lembre “instituição” –
seja religiosa ou familiar. Kierkegaard, no século XIX,
já havia observado essa tendência: “Quem vive
sob o domínio da sensação tenta realizar
todas as possibilidades, mas estas não lhe proporcionam
mais do que um prazer transitório. A ameaça do tédio
é perpétua e consequentemente a busca de novidades
conduz, em última instância, ao desespero”.
Consideram tudo, menos a Deus. Ao serem questionadas desenham
um sorriso maroto nos lábios, como se fôssemos mascates
oferecendo um produto que não precisam no momento. Rejeitam
de antemão qualquer menção ao Sagrado. É
como se dissessem: “Oh Deus, por favor, não precisa
se incomodar comigo, está tudo bem”.
Max Gehringer o renomado consultor de assuntos corporativos,
pregou uma peça numa de suas falas na rádio. Disse
que entrevistara um famoso guru de empresas, o Dr. Reynold Rehm,
que respondeu com propriedade e sabedoria várias perguntas
suas. Mas ao final de sua crônica(*), surpreendeu aos ouvintes,
dizendo:
“Eu só queria me desculpar pelo fato de que não
existe nenhum Reynold Remhn. Eu o inventei. Todas as respostas,
embora extremamente atuais foram retiradas de um livro escrito
há 2.300 anos: o Eclesiastes, do Velho Testamento. Mas,
se eu digo isso logo no começo, muita gente, talvez, nem
tivesse interesse em continuar ouvindo”.
O fator Deus está descartado na cabeça da maioria
das pessoas. Menos numa situação: diante da possibilidade
da morte. Causou impacto a abertura da caixa preta contendo o
diálogo dos pilotos da recente tragédia aérea:
“Oh, meu Deus...oh, meu Deus” foram suas últimas
palavras. Antes do choque fatal, com a situação
ainda sob controle, usaram palavras técnicas da aviação:
“reverso 1 aberto... spoiler.. desacelera...” mas
diante da inevitabilidade da morte, recorreram Àquele que,
possivelmente, nunca fez parte de seus pensamentos cotidianos.
Não é estranho que na hora final ninguém
clame pelo seu ídolo da música, nem pelo autor favorito,
ou por seu ideólogo, seja Marx, Engels, Freud ou Paulo
Coelho, mas por Aquele com quem teve má vontade durante
toda a vida, Aquele que relutou em buscar e seguir? Nada posso
dizer da vida daqueles homens, se conheciam ao Deus que chamaram,
se O reverenciavam, se oravam e prestavam-lhe culto, mas posso
afirmar que há um grito sufocado, reprimido, naqueles que
vivem sem Deus.
Será que Deus é para ser buscando somente quando
não se tem mais “cartas da manga”? Quando não
há mais nenhuma chance? Será que conversão
é só para artista decadente, para jogador em fim
de carreira e cantor que vive o seu ocaso? No auge da fama e sucesso,
não? No vigor da vida e juventude, não? Fico pensando:
será que só diante da tragédia, da morte
iminente, da doença incurável é que Deus
“serve”? Ele não serve para viver, para amar,
para festejar?
Quer dizer, então, que Deus, no fundo, é uma possibilidade
real, mas que só se busca no fim? Só nas horas crepusculares?
Só no lusco-fusco da existência?
É verdade que aquele ladrão na cruz reconheceu
o amor de um Deus real em suas horas finais. Certamente, se tivesse
tempo, desceria dali e recomeçaria sua vida em outras bases.
Mas porque muitos não o fazem já? Vergonha, orgulho,
medo de rever seus conceitos de vida? Talvez por essa razão
que Deus julgará assim: “Quanto aos covardes, aos
incrédulos... só lhes restará uma expectativa
horrível” (Ap 21.8).
Muitos, pensando nos prós e contras, decidem: “é
melhor não”. Dizem isso porque têm medo de
dar um salto de fé e abrir mão do lixo que retêm
na mão. De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder
sua alma? Entenda-se alma, aqui, seus valores, sonhos, projetos....
Vida com Deus é sempre incomparavelmente melhor.
Quando a nostalgia pelo Único e verdadeiro Senhor do Universo
é reprimida – por medo ou conveniência –
esse desejo pelo Eterno acaba saindo de uma forma enviesada, ou
seja, o que deveria ser uma busca honesta e aberta, desvirtua-se
para a superstição, esoterismo, panteísmo,
materialismo exacerbado (o dinheiro adquire valores divinos) e
busca-se religiões excêntricas que seduzem por suas
promessas fáceis.
Acho que a culpa é de Deus, pois Ele não facilita
nada, não barganha para ganhar seguidores. O jovem rico
saiu contrariado depois de uma conversa com Jesus, que não
foi atrás dele melhorando a oferta. Na verdade Jesus desagradou
muita gente: despediu os poderosos, decepcionou multidões
de seguidores que achavam suas palavras muito duras e fez desfeita
na mesa de jantar de pessoas influentes da sociedade.
Mesmo que riam e desdenhem, continue falando e pregando. Somos
como João Batista clamando no deserto, e às vezes
nos olharão como se comêssemos gafanhoto. Mas há
uma ordem divinal que pesa sobre todos nós: “tu lhes
dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem
e ouvir, pois são rebeldes” (Ezequiel 2.7). Não
temos o direito de desistir.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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