DEUS INCOMODA
Para uns, Deus é uma força cósmica, uma
energia poderosa e inexplicável, que emana suas radiações
dos confins do Universo.
Para outros, Deus criou o mundo, mas hoje está inoperante
por não ter impedido que coisas ruins acontecessem, como
o Holocausto, o 11 de setembro e a tsunami destruidora na Ásia.
Ainda para alguns, Deus é um ser castrador, que inventou
mandamentos, regras e proibições para impedir que
gozemos tudo o que há de bom na vida. Já em outro
extremo, há os que vêm em Deus uma divindade tão
amorosa que Ele não faz conta de nossos erros, tropeços
e pecados... é enfim, um “deus bonzinho”, que
lá no Antigo Testamento foi severo, mas agora se arrependeu.
Não é difícil perceber que, embora desconheçam
da natureza e do caráter divino narrados nas Escrituras,
as pessoas estão em busca de uma espiritualidade –
qualquer uma – para fruir de suas bênçãos
e benesses, mas nem sempre desejam Aquele que originaram elas.
O povo tem fome de que? Certamente não é do “Deus
de Abraão, Isaque e Jacó”, e nem tampouco
de Jesus de Nazaré.
Em primeiro lugar, o povo busca sensações prazerosas.
Por isso a avaliação que fazem de nossas reuniões
de fé sempre se dá no campo estético: “gostei”,
“bonita apresentação”, “bela mensagem”.
Ou ainda no campo da sensação: “senti uma
coisa gostosa ali”. Sem dúvida que a presença
divina pode proporcionar tudo isso, mas um verdadeiro encontro
com o Eterno não fica só na sensação:
a vida inteira é tocada.
É duvidoso afirmar que a maioria das pessoas que procuram
uma instituição religiosa ou o auxílio de
um pastor, estejam de fato buscando um Deus que reine em suas
vidas, que controle seu humor, dirija seus sonhos, e conceda-lhes
uma virada existencial. Não! Desde que a igreja atenda
alguns de seus problemas pontuais, está tudo bem, e isso
por vezes independentemente de qualquer fé em Deus.
Quando vejo nas manhãs frias de domingo igrejas repletas
de fiéis, braços levantados, entoando cânticos
de vitória, custa-me crer que estejam de fato buscando
ao Deus Trino, Santo e Soberano. Vamos comprovar? Eliminem-se
as promessas de cura, de emprego, e de resolução
de problemas.... e aquele local se esvaziará. Experimente-se
num espaço de grande aglomeração de fé
alterar o cardápio que será oferecido à multidão,
e ao invés de um “encontro de milagres” promova-se
ali um estudo profundo da Epístola de Tiago e uma palestra
com o tema “Santidade ao Senhor”, e constataremos
que todo interesse desaparecerá. Não, não
é a Deus que buscam.
Na verdade, poucos querem Deus, pois Deus incomoda. Ele nunca
nos dá nenhuma certeza, a não ser Suas promessas
escritas num livro com mais de dois mil anos. Não há
apólices, contratos ou qualquer outra segurança
que seja visível ou palpável. Neste mundo moderno
as pessoas não querem incertezas ou riscos.
Como Eugene Peterson observou, Deus incomoda porque esperamos
que Ele resolva nossos problemas de caráter e de vícios
de forma rápida e indolor. Mas Ele insiste num “programa
de recuperação” lenta e gradual.
Deus incomoda porque Ele destrói nossas ilusões
religiosas mais sublimes. Foi assim com o povo que seguia a Jesus
porque “tinham visto os sinais que ele fazia” (Jo
6.2), mas quando o Mestre começou a mostrar a outra face
do Reino essas pessoas abandonaram a fé e já não
andavam com Ele. Até os próprios discípulos
também foram confrontados: ”Quereis também
vós retirar-vos?” (Jo 6.67). Em outras palavras:
o homem que segue a Cristo por uma razão falsa ou errada
está iludindo a si mesmo e enganando a Igreja, pois quem
os observa presume que este iludido seja um cristão. E
não é! (Lloyd-Jones).
As pessoas não se sentem confortáveis com Deus
em suas vidas. Elas preferem algo menos temível, como por
exemplo, serem simpatizantes da fé e freqüentadoras
dos cultos. Por quê? Simples: Deus incomoda, perscruta,
atinge, inquire, confronta nossos valores, provoca crise, altera
nossa rotina, retira todas as nossas seguranças, substitui
o reinado do ego para construir em nós o Seu reino, pede
que eu me esvazie, e me “envia” ainda que eu não
me ache preparado ou capaz.....
Definitivamente é perigoso envolver-se com Deus.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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