CRISTÃO EXTRAVAGANTE
Diante de inúmeros termos que se tornaram comuns no meio
evangélico atual, um que se há de destacar é
o da “adoração extravagante”. Muito
se tem falado e escrito sobre esse tema. Meu intuito aqui é
refletir e propor um entendimento diferente e mais amplo.
Por certo a vida cristã é constituída de
inúmeros aspectos que precisam ser observados, tais como
a devoção diária, a meditação
na Palavra, o louvor, a ação de graças, a
adoração, a oração, a comunhão
com o Corpo, e muitos outros. Porém, a partir do momento
que elegemos e vivenciamos um desses aspectos de uma forma mais
preponderante, naturalmente outros podem ser relegados a um plano
inferior, e com o tempo acabam sendo esquecidos e até mesmo
depreciados. Na verdade, o bom-senso e a coerência cristã
nos levam a buscar o equilíbrio valorizando tudo aquilo
que é importante e essencial.
Quando falamos em “extravagante” normalmente associamos
com algo fora-do-comum, algo que vai além do normal, e
num certo sentido excêntrico. Pode ser algo bem peculiar
àquela pessoa, e representar uma expressão saudável
de todo o ser do cristão. Ou não!
Como estudioso da alma humana, entendo que se torna imperioso
diferenciar aquilo que é salutar, que beneficia, que acrescenta,
que edifica, que aumenta nossa percepção, que nos
remete a uma vida de mais coragem, sim, há de se diferenciar
de atos que sejam frutos de obsessão, de gestos vazios,
de doença da alma, de alienação em relação
à vida. A nossa proximidade de Deus sempre nos leva a um
nível de maior desenvoltura, maior conscientização
e compromisso. A espiritualidade sempre acrescenta, e não
subtrai.
Na verdade, a vida cristã não pode sofrer de nenhuma
forma de “reducionismo”, ou seja, não se pode
decompor o todo da riqueza da expressão de fé cristã
e conceder-se a uma de suas partes mais atenção
e valor que a realidade total. Por isso, mais importante que ser
um “adorador extravagante” é ser um cristão
com todas as implicações a que isso remete. E se
for um cristão “extravagante”, no sentido de
que foge do lugar comum dos modelos “insosso-gospel”
existentes, melhor!
Vejo na Parábola do Samaritano (“bom samaritano”
é um termo preconceituoso), contada por Jesus (Lc 10.25-37),
um ensino para compreendermos a adoração a serviço
da vida e não como um “momento” a ser vivenciado
dentro do templo.
Historicamente os samaritanos pertenciam ao reino israelita do
norte que caiu ante o império assírio em 722 a.C.,
e a mistura gradual com povos colonizadores foi alterando paulatinamente
a atitude e a adoração do povo. Ou seja, para um
judeu, era muito claro que um samaritano não era capaz
de adorar a Deus “corretamente”. E quando Jesus começa
a desfilar os personagens que passaram diante daquele homem caído
e machucado por salteadores, era presumível aos que ouviam
a parábola, que o levita e o sacerdote socorreriam o pobre
homem. Era de se esperar que a visão do sofrimento humano
tocaria fortemente aquelas figuras religiosas cujas funções
os colocavam como irreputaveis.
Sacerdotes e levitas tinham seus deveres específicos no
templo, aos quais sem dúvida, incluía a adoração.
Talvez eles estivessem apressadamente vindo de Jerusalém
para Jericó após o trabalho do templo. Já
quanto ao samaritano, ele era considerado de antemão um
desqualificado, um despreparado, alguém que não
saberia como adorar a Deus verdadeiramente, pois ele não
tinha nem a “técnica”, nem a paixão,
nem o conhecimento necessário para isso.
Mas, surpreendentemente foi aquele piedoso samaritano que trouxe
uma preciosa lição aos religiosos da época
e a nós. Ele não só se condoeu, como socorreu,
como transportou e ainda deixou dinheiro na hospedaria para os
gastos que viessem a ter com o ferido. Podemos dizer, pela narrativa
da parábola, que ele teve:
1. coração compassivo;
2. prestou socorro;
3. o cansaço do transporte do ferido;
4. cuidados para providenciar as necessidades posteriores.
Tudo isso, percebe-se, que foi emanado de um coração
verdadeiro. Podemos dizer que o amor ao próximo ensinado
por aquele homem não foi calculista nem mesquinho, mas
totalmente extravagante e abundante! O samaritano não estava
procurando cumprir um dever, nem estava se mostrando a ninguém,
simplesmente ele deu-se inteiro. Eu até ousaria chamar
de a “parábola do samaritano extravagante”.
Salta aos olhos a “extravagância” de sua compaixão,
assim como salta aos olhos a “pressa” do levita após
a sua adoração.
Uma pergunta deve ser feita aqui: naquele dia, de onde surgiu
a adoração extravagante ao Senhor? Naquele dia,
quem O adorou em espírito e em verdade?
Ser um cristão extravagante pode levar muitos a imaginarem
coisas esquisitas tais como o monge medieval que ao converter-se
prometeu nunca mais comer carne saborosa, ou aquele outro que
isolou-se numa caverna no alto da montanha e nunca mais saiu de
lá.
Na vida do cristão primitivo vemos que a adoração
não se prende mais ao templo, não se detém
no horário do culto, não termina após a performance
no palco.... agora ela expande-se para a própria vida.
O lugar por excelência do cristão não se restringe
nem ao culto, nem à igreja, nem a um evento especial. Esse
lugar agora é o mundo, é a vida. Não se pode
reduzir a vida do cristão à vida eclesial.
A verdadeira adoração é mais que gestos,
posturas, e emoções diversas. Ela desenvolve a fé,
gera força para viver, confere a nós uma alma grata
e consciente da nossa dependência Àquele que cuida
de nós. Penso que se a adoração extravagante
não gerar uma vida cristã igualmente “além-do-normal”,
ela se tornará vazia, mostrar-se-á oca, descompromissada,
presa ao êxtase da transfiguração e desvinculada
da vida “cá embaixo”.
Esparramar-se e quebrantar-se diante do Senhor hoje significa
andar com Deus, significa derramar a alma e o coração
na confiança, no amor e no desejo de não colocar
nenhuma barreira, nenhum senão, nenhum obstáculo
entre nós e Jesus. Significa vivenciar um amor irrestrito
a Ele, deleitar-se com a Sua Palavra, embeber-se dela, “embriagar-se”
do Espírito para falar com profusão das maravilhas
de Deus. É esbanjar confiança na Graça de
Deus.
Mais que adoradores, queremos ser cristãos verdadeiros
que compreendem que sua adoração extravagante consiste
em quebrar o alabastro de sua vida e permitir que o bom perfume
de Cristo inunde a Terra.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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