CICATRIZES
“Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque
eu trago no corpo as marcas* de Jesus” (Gl 6.17)
Quase todos nós carregamos marcas pelo corpo. Muitas são
cicatrizes vindas da infância. É possível
até contar um pouco de nossa história através
delas: a queda da bicicleta, a queimadura no fogão, o corte
com a faca, o encontro com o arame farpado.... Alguns mais antigos
trazem os sinais que a varíola deixou quando ainda não
havia vacina.
Marcas podem ser chamadas de “estigmas” (do gr. Stigmata*),
como Paulo o fez em Gálatas 6.17, que eram as cicatrizes
provocadas por tortura, apedrejamento ou ferro em brasa para marcar
escravos e animais.
É interessante que a literatura sempre se valeu de personagens
que foram estigmatizados pelo que traziam no corpo: o corcunda
de Notre Dame, de Vitor Hugo, era um homem de feições
deformadas, membros retorcidos, porém sensível às
manifestações da beleza, e o “Fantasma da
Ópera” conta a história de um homem desfigurado
que exercia medo e fascínio.
Assim como as queimaduras e os cortes deixam seus sinais pelo
corpo, é certo que a alma também possui a propriedade
de receber marcas, mas ao contrário do corpo, que com o
passar do tempo se regenera, muita dor causada na infância
ainda permanece viva. São sentimentos que se perpetuam
e os anos parecem não atenuar. É como se aquelas
cicatrizes quisessem ser notadas para dizerem: “olhem o
que fizeram comigo”.
Se a cicatriz só marcou o corpo, tempos depois somos capazes
de rir, pois a dor ficou perdida no passado, mas se ela atingiu
a alma, qualquer lembrança do fato faz despertar todo o
desespero que causou. E o que é pior: por conta da associação
simbólica, aquele que feriu adquire novos rostos, e isso
faz com que se continue lutando contra pessoas que não
foram exatamente aquelas que causaram a dor.
Conseqüência: muitas oportunidades são perdidas
com medo de reviver a dor de um fracasso passado. Outros fecham
o seu coração para um relacionamento afetivo para
não correr o risco de serem abandonados novamente.
Por que reagimos assim? É o sentimento de vergonha ou
humilhação que não quer ser repetido. É
como se a alma tivesse feito um juramento: “nunca mais farão
isso comigo outra vez”. Quase dá pra ouvir Judas
justificando seu apego ao dinheiro para se proteger das privações
que passou na infância, ou a prostituta que vende seu corpo
para evitar a dor de estar sozinha. As feridas tornam-se então
uma espécie de escudo para justificar gestos e escolhas.
O que fazer com marcas tão indeléveis? Dê
de ombros, viva a vida que Deus lhe concedeu olhando para a frente,
e esqueça-as. Mas não precisa negá-las, apenas
saiba que elas estão ali. Faz parte de sua história,
é verdade, mas não lhes conceda o direito de direcioná-lo
pelo resto de seus dias – são péssimas conselheiras.
Lembro-me quando criança minha mãe dizendo: “Não
mexa na ferida para não infeccionar”. Felizmente,
hoje, estou em paz com elas.
Cicatrizes apontam para lutas, e algumas delas levam a marca
divina. Foi um pusilânime Jacó, indolente e “protegido
da mamãe” que teve no vau de Jaboque um embate que
mudou sua história. Depois de uma madrugada de luta deixou
aquele riacho com um novo nome, mas como ninguém sai incólume
de um encontro com Deus, ele também foi embora para casa
manquejando duma coxa (Gn 32.31), uma marca que possivelmente
levou para o resto da vida.
Não sei em quais áreas de sua vida há cicatrizes,
mas Deus conhece cada pedaço do seu ser e O sabe. Quasímodo,
o corcunda sineiro da Catedral de Notre Dame isolava-se para não
expor suas deformações. Uma máscara sobre
o rosto desfigurado foi a forma utilizada pelo “fantasma”
da ópera para esconder sua “fealdade”. Esconder-se
e viver defensivamente parecem ser características comuns
de quem se sente ferido. Mas em Cristo, somos libertados desses
sentimentos, e podemos dizer como o apóstolo:
“Pela graça de Deus, sou o que sou” (1Co 15.10).
Com cicatriz e tudo.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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