CAÓTICA, SEM FORMA E EM
CRISE
Lembro-me
das primeiras aulas de hebraico tentando ler Gênesis 1.2:
“a terra estava sem forma e vazia”, e o professor
nos ensinando a expressar de forma bem gutural as palavras “tohu
va-bohu”, que significam: um amontoado caótico de
trevas aterrorizantes.
Segundo os teólogos que defendem a “Teoria da Lacuna”
teria ocorrido uma catástrofe cósmica entre o verso
1 e 2 de Gênesis, e uma antiga criação que
abrigou uma raça pré-adâmica e também
os dinossauros foi destruída pelo juízo divino há
milhões de anos. E o que restou foi o caos.
Há algo em nosso ser interior muito próximo disso.
Somos seres fragmentados, desconhecidos para nós mesmos,
buscando ordenar nossa confusão interna. E o mesmo Senhor
que pôs em ordem o cosmos com sua palavra e vontade deseja
reorientar o interior do homem. É possível ver este
desejo divino em prática quando Paulo diz que Deus nos
“libertou do império das trevas e nos transportou
para o reino do seu Filho” (Cl 1.13). Enquanto o império
das trevas cósmico recebeu a ordem divina: “haja
luz”, e houve luz, o reino humano foi irradiado pela presença
de Cristo, e nas regiões dominadas pelas sombras brilhou
a Luz de Sua Presença entre nós.
Desde o princípio o homem sofre de delírios de
grandeza e por isso busca encontrar segurança nas suas
realizações. A primeira grande tentativa da humanidade
de realizar-se foi erigir uma torre para chegar ao céu,
e gravar seu nome ali. De igual modo, a partir da Idade Média
também passamos a construir templos monumentais e catedrais,
procurando através deles “tocar o céu”,
inspirar segurança e passar solidez aos seus freqüentadores.
Hoje, não contentes com o “poder eclesial”
este mesmo homem busca também o “poder político”.
O maior grupo neopentecostal do Brasil já tem o seu partido
(PRB), e agora, a mais tradicional igreja pentecostal foi picada
pela “mosca azul” e está montando também
uma agremiação – o PRC – para entrar
na política partidária. É o ovo da serpente
sendo chocado: sabemos que em algum momento da História,
a besta que emerge da terra (sistema religioso) juntará
suas forças à besta que emerge do mar (poder político)
para sua derradeira investida.
Se houve um juízo divino sobre o faraó do Egito
e seu povo, se houve sobre os construtores da torre de Babel,
se os filisteus sofreram terríveis conseqüências
por terem se apossado da arca, se a terra engoliu os adoradores
do bezerro de ouro e se o rei Herodes foi comido por vermes na
frente de uma multidão por não ter dado glórias
a Deus (At 12.23) não viria um juízo também
sobre esta geração?
Deus é paciencioso e suporta longamente a perversidade
dos que se desviam, mas Ele avisa: “Dei-lhe tempo para que
se arrependesse”. Porém, a loucura e a bazófia
dos homens tem subido até os céus.
Vivemos a mercantilização da vida onde tudo tem
seu preço: valorizamos o que tem utilidade imediata para
nós, inclusive gente, e quando não tem mais, a ordem
é: jogue fora, e esqueça. Na atividade econômica
trabalhadores precisam atingir as metas traçadas por acionistas
ávidos de lucros – senão todos perdem o emprego.
Mas que ninguém se escandalize, pois isso já é
normal nos grandes conglomerados da fé: pastores também
têm de atingir suas metas – de valores, diga-se de
passagem – e não de amor, visitação,
cuidado ou pastoreio. É a mercantilização
da fé onde “deus” nada mais é que um
sujeito obcecado por dinheiro, e que só sabe falar money,
money, money....
Ao contrário do que muitos imaginam, o juízo não
começará pelos ímpios, porém, “o
julgamento começa pela casa de Deus” (1Pe 4.17).
Compreendo agora quando Salomão diz que “se o justo
é punido na terra, quanto mais o perverso e pecador”
(Pv11.31).
A palavra grega que expressa juízo é “krisis”.
Não significa necessariamente condenação,
podendo até mesmo ser uma oportunidade para decisão,
porém será sempre dolorosa. Para os médicos
da Antiga Grécia a palavra “krisis” tinha um
especial significado: quando o doente depois de medicado entrava
em “crise”, era sinal de que haveria um desfecho:
a cura ou a morte.
O Juízo e sua crise estão aí por toda a
parte. Vidas tresloucadas, destroçadas, amarguradas. Mas
João Batista adverte que a única coisa que pode
nos livrar do juízo divino é o arrependimento e
a conversão.
Não sei quanto a você, mas algo me diz que estes
últimos acontecimentos que abalaram o mundo irão
se aprofundar ainda mais para todas as áreas da vida. A
humanidade se encontra sob a ira divina, pois “todo aquele
que se mantém rebelde contra o Filho... sobre ele permanece
a ira de Deus” (João 3.36). Ou seja, o único
que pode impedir a ira do Eterno é Jesus. Vamos ouvir mais
o que Ele tem a nos dizer, vamos praticar mais as Suas Verdades,
e permitir que Ele controle o nosso ser cansado, afinal o Juízo
divino já está entre nós e horrível
coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10.31).

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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