A pedra no meio do caminho
Não é uma experiência agradável encontrar
uma pedra no caminho, principalmente quando está indo tudo
muito bem em nossa vida. Pedra é sinônimo de obstáculo,
de sofreguidão, de esforço. Normalmente lidamos
mal com os obstáculos, nos desconcertamos, perdemos o ânimo,
vacilamos.
É quase inaceitável para um cristão o surgimento
de um obstáculo repentino no caminho. Talvez porque cobramos
muitas facilidades de Deus para a nossa vida. E, se de repente,
isso não acontece, nos questionamos se Deus não
“falhou” ao permitir que tal infortúnio nos
incomodasse.
Num mundo que vende facilidades e numa religião cristã
buscada por muitos somente para solução de problemas,
é constrangedor a interposição de um obstáculo
entre nós e nossos objetivos. Só conseguimos viver
bem num mundo espiritual de causa-e-efeito regido pela lógica
do – “se fiz tudo certo, porque algo haveria de dar
errado?”.
Topar com uma pedra no caminho é visto, espiritualmente,
como um desgaste desnecessário, um “azar” que
nada tem de produtivo. Aquilo passa a ser uma fixação
na alma do cristão, do mesmo modo como foi para o poeta
Drummond, nesse desconcertante poema:
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
Não é fácil aceitar a existência dessa
pedra. Ela paralisa, ela fascina, exerce poder sobre nós.
Infelizmente, sempre há uma pedra no meio do caminho que
não era esperada. A pedra da traição do cônjuge.
O diagnóstico médico daquilo que mais temíamos.
O acidente sofrido. O fim de um longo relacionamento amoroso.
Há os que reagem com fatalismo. A frase preferida desses
é – “Tudo comigo é difícil!”.
E suas preces: “Oh Deus, nada dá certo para mim!”.
Há ainda quem veja na pedra o desvanecer de toda esperança,
onde até mesmo a morte é vista como alívio:
“Não vejo mais saída... não vejo retorno...
não vejo remédio...”.
Uma pedra pode adquirir um significado diferente para cada um:
Jacó usou uma como travesseiro. Davi usou uma como arma.
Para o pedreiro é material de construção,
para o de ânimo dobre pedra é um obstáculo
que o impede de continuar o caminho, mas para quem aceita desafios
a visão dessa mesma pedra lhe enche de ânimo e vontade
de sobrepujá-la.
A pedra no meio do caminho tem o poder de revelar quem somos.
Pois é justamente diante do abandono, diante da perda,
diante do mais irremovível obstáculo que mostrarei
quem eu sou, em que confio e como o meu eu reage diante de situações
limites da vida.
Não seria essa pedra no meio do caminho uma oportunidade
que Deus nos dá para nos conhecermos? Não é
essa pedra que vai apontar para o mais profundo de nosso âmago
e tirar das sombras aquele ser exposto em sua total fragilidade,
desprotegido e ansioso para que possa ser curado?
Pedra, quando é obstáculo, torna-se obsessão.
O poeta não consegue tirar a pedra nem de suas retinas
fatigadas nem de seus pensamentos. É impressionante como
nos deixamos fixar pelas pedras no caminho. Deus coloca flores
ao longo da estrada, há riachos, há sol, há
a paisagem, há a bênção divina sobre
nós, há a graça, há as promessas,
mas o que se imprime indelevelmente em nossos olhos cansados é
a pedra. Aonde vamos carregamos essa pedra que surgiu no meio
do caminho. Nossos olhos não se fixam no Cristo ressurrecto,
mas na pedra do caminho, não olhamos para o Alto, mas para
o chão.
Não há personagem do NT que mais tenha encontrado
pedras no caminho que o apóstolo Paulo: naufrágios,
açoites, prisão, fome, perigo, nudez, espada, e
ao final de seu ministério não encontramos um grito
retumbante de sucesso, mas um breve lamento por aqueles que o
abandonaram. Entretanto ele não se deixa amargurar, nem
fascinar. Ele é capaz de reconhecer a presença companheira
de Cristo, ao seu lado, é capaz de nos animar e dizer “Alegrem-se,
alegrem-se no Senhor, pois a mim não me desgosta”.
A pedra no meio do nosso caminho é um convite a olharmos
para Deus. Havia uma pedra entre Jesus e Lázaro morto.
Mas Jesus sabe que ela não pode impedir a ação
de Deus, e ordena aos homens – “tirem a pedra”.
Tirar a pedra é o ato humano que permite iniciar o milagre
divino.
Não fique estancado diante da visão de uma pedra,
mas continue caminhando. Também não se deixe enredar
pela presença desse obstáculo, mas aprenda a se
deleitar com as flores do caminho.
Rev. Daniel Rocha
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