A NOIVA DESFIGURADA
Há um clima de expectativa no ar. O encontro mais aguardado
na história do Reino finalmente se concretizará,
e toda a corte celestial está presente. Depois de uma longa
ausência, onde esteve o tempo todo ao lado do Pai, o Noivo
agora está a postos no seu lugar com os olhos fixos em
direção de sua Amada. Veste-se de linho finíssimo,
branco e puro [Ap 19.14], e seu coração bate ansioso
pelo muito que a ama.
Enquanto a hora não chega, ele relembra as palavras de
amor que um dia confessou à ela, quando esta passara por
grande tribulação, e consolava-a:
“Levanta-te, querida minha, formosa minha, e vem, porque
eis que passou o inverno, cessou a chuva e sei foi.... chegou
o tempo de cantarem as aves” (Ct 2.10-11).
Lembrou-se também de quando ela lhe jurou fidelidade:
“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu”
[Ct 6.3]. Emocionou-se ao recordar que um dia ela se apaixonara
por suas palavras, dizendo que “o seu falar é muitíssimo
doce, totalmente desejável” [Ct 5.16]. Ele sabia
que nada, nem o tempo decorrido, nem as muitas águas poderiam
apagar o amor, nem os rios, afogá-lo [Ct 8.7].
Os pensamentos ainda enterneciam sua mente quando chegou a hora
do encontro. As portas do céu se abriram mostrando ao longe
o contorno da Amada, e o Noivo caminha vagarosamente em direção
a ela. A cada passo seu coração bate mais forte,
mas.... algo não está bem. Aquela figura estática
ao longe não esboçou alegria quando o viu, sua aparência
é estranha, seus cabelos desgrenhados, o vestido rasgado,
e até mesmo sujo.... os lábios que ela pedia para
beijá-los [Ct 1.2], estão cerrados....
A imagem do casamento e das bodas está presente por toda
a Bíblia, mostrando o profundo desejo de Deus em unir-se
à Sua Prometida. Mas desde cedo o comportamento dela causou
estranheza ao seu Amado, sempre tentando Lhe enganar com um amor
de aparências. Ela vem até Ele, se assenta diante
Dele, ouve suas palavras, “mas não as põe
por obra; pois com a boca professa muito amor, mas o coração
só ambiciona lucro” [Ez 33.31].
A Esposa renega-Lhe o poder sustentador, e vai atrás de
“amantes que lhe dão o pão, a água,
a lã e o linho e o óleo” [Os 2.5]. Quem são
esses amantes? Não são eles justamente, os “intermediários”
que levam a fama de conseguirem para ela toda a graça/bênção
que necessita? Não são todos os nomes de homens
(vivos ou mortos), santuários e catedrais, que prometem
sustentar-lhe diante de toda adversidade? Mas eis que o Esposo
responde: “Ela, pois, não soube que eu é que
lhe dei o trigo, e o vinho, e o óleo, e lhe multipliquei
a prata e o ouro” [Os 2.8] .
A Noiva perdeu o desejo de estar com o Amado. Ela gasta todo
o seu tempo em entretenimentos coletivos, embalados por horas
de música, mas estranhamente rejeita estar a sós
com o Noivo. E pior, renega aquilo que Ele mais preza: “se
alguém me ama, guardará a minha palavra” [Jo
14.23]. Nunca a palavra do Noivo foi tão desprezada como
nestes momentos que antecedem sua vinda. Sua palavra foi trocada
por outras atividades – digamos assim – mais excitantes.
Embora não seja explicitamente renegada, a Palavra do Noivo
tornou-se um mero acessório com capas, modelos, e cores
diferentes, mas o seu conteúdo continua sumariamente ignorado.
A Esposa abandonou a fidelidade que um dia havia jurado, e entregou-se
à lascívia, e até mesmo à prostituição.
É tão forte a indignação do Esposo,
que ele não usa de meias palavras para dizer que “abriste
as pernas a todo que passava” [Ez 16.25]. Gostaria de ser
mais sutil, mas Deus não é. Aliás, Sua Palavra
não é para pudicos – e quem deseja literatura
agradável irá encontrar em livros de auto-ajuda.
Que os meninos na fé não imaginem que tais coisas
são acontecimentos passados, ao contrário, continuam
sendo realidade entre nós. A Noiva abandonou os pudores,
a decência, o recato e todo pejo.
O coração de Deus chora.... “Quero-te gloriosa,
sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém
santa e sem defeito (Ef 5.25-27), mas flertas com o misticismo
confundindo-o com espiritualidade, abandonas o Meu Amor incondicional
trocando-o por bondades espiritualistas, se entrega voluptuosa
a uma relação promíscua com Mamon [Mt 6.24],
e tem sujado suas vestes com toda sorte de escândalos”.
A hora se aproxima, e apenas “umas poucas pessoas que não
contaminaram as suas vestiduras” [Ap 3.4] andarão
com o Noivo. Chamo a atenção para essas “umas
poucas” pessoas, o que mostra que a Noiva de Cristo é
bem menor do que se apresenta. Talvez por isso, nunca me deixei
impressionar por multidões.

Pr. Daniel Rocha
Pastor da Igreja Metodista e psicólogo
dadaro@uol.com.br
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